Você tem um minuto para ouvir a palavra de Grace e Frankie?

“Diga-me o que realmente pensa.”

Tem mais ou menos um mês que comecei a assistir à série Grace and Frankie, por indicação de amigos (obrigada, Nathan e Gabriel) que souberam da minha recente admiração por Jane Fonda. A atriz estadunidense, de 81 anos, foi presa quatro vezes seguidas por causa do seu ativismo em protestos contra as mudanças climáticas. Na segunda prisão, eu já estava pesquisando tudo sobre Jane Fonda e comecei a descobrir a mulher incrível que ela é. Foi nesse clima aí que eu vi o primeiro episódio da série, da qual Jane também é a produtora, e me apaixonei completamente. A série conta ainda com a espetacular atriz Lily Tomlin, que interpreta a Frankie, uma mulher que vive a partir dos seus próprios códigos éticos e que tem uma filosofia hippie totalmente contrária ao que Grace viveu durante toda a sua vida. O que acontece logo no início, não é spoiler, é que os maridos de Grace e Frankie se tornaram sócios e há vinte anos são amantes. Robert e Sol decidem contar isso para suas esposas e famílias após 40 anos de casamento, porque querem, finalmente, ficar juntos sem se esconderem mais. Essa situação, que por si só é um grande drama, não muito distante da realidade de muitos homossexuais, é dividida com o público de uma forma linda, complexa, sem maniqueísmos, sem que as responsabilidades sejam escamoteadas, sabe. É uma bonita discussão sobre casamentos, sobre se conhecer e conhecer o outro, sobre poder ou não se mostrar, sobre o conflito de ser alguém que deseja dentro de uma sociedade que nos poda quase o tempo todo. Acho que o que me arrebatou de vez nesse primeiro episódio foi uma frase da Grace em que ela diz algo mais ou menos como: mas eu fiz tudo certo, eu criei as filhas dele, eu saí para fazer compras com a mãe dele. A personagem de Jane Fonda coloca em questão o tempo todo o porquê de seguirmos as convenções sociais que nos foram e nos são impostas. Menos pelos questionamentos em si, mais pelo confronto com a visão de mundo de Frankie. Apesar de tudo, as duas se apoiam e se tornam grandes companheiras nessa jornada. Na primeira temporada da série, elas estão na casa dos 70 anos.

Não é muito comum que uma série me arrebate assim, desde o primeiro episódio, mas nós também não estamos vivendo um momento comum em nada, então, ok. A partir daí, comecei a falar sobre Grace and Frankie em todos os cantos, todas as conversas, directs do instagram, postagem nos stories, conversa de zap. Foi numa dessas que eu descobri que uma das minhas melhores amigas já tinha assistido a essa série e A-MA-DO. Como assim? Como assim uma das minhas melhores amigas não me recomendou essa série, se a gente se conhece tão bem, se ela com certeza sabe que eu ia gostar, se a gente divide tantas coisas, pessoas, emoções, ideias. Perguntei isso para ela e a resposta foi certeira: nós não falamos mais sobre amenidades. Desde quando?, perguntei de volta. Há muito tempo, ela me respondeu. Isso me desencadeou vários pensamentos, alguns que dividi com ela, outros que ficaram só comigo. Um deles é o que todo mundo que tem vida adulta já deve saber: vemos muito menos os nossos amigos e amigas do que gostaríamos, falamos muito menos com nossos amigos e amigas do que desejamos. A gente sabe bem o porquê disso, não adianta jogar para baixo do tapete. Acabamos priorizando o trabalho, os estudos, os corres do dia a dia, enfim, uma vida que nos dá muito menos alegrias, pequenas felicidades e prazeres do que gostaríamos e precisamos ter. Esse é o segundo pensamento: tudo que vem acontecendo nos últimos anos no nosso país, principalmente para quem atua no campo da esquerda, tem nos tornando mais sisudos, mais sérios, mais graves, com necessidade de conversar sobre a conjuntura, fazer mil análises, até beber para esquecer as angústias, mas com muito menos sorrisos do que tínhamos antes de 2016, isso é certo. Mas e as amenidades? Por que temos dado menos valor às amenidades? Grace e Frankie vieram para mim em um momento de tiro, porrada e bomba, antes da soltura do Lula, com as agressões do ministro da (des)educação, o óleo derramado pelo nosso litoral, a menção ao assassinato do pai do presidente da OAB pela ditadura, tantas e tantas coisas que, vocês sabem, todos os dias os noticiários nos despejam goela adentro. E, sim, precisamos saber, porque não dá para viver nesse país, nesse continente, nesse mundo, achando que está tudo normal. Daí que assistir a uma série que mostra os sentimentos das pessoas e as relações de uma forma tão gostosa, engraçada em alguns momentos, dramáticas em outros, mas que traz uma leveza ao tratar da complexidade humana, foi meu oásis nesse último mês. E por que precisamos de oásis? Oásis não é uma ilusão de quem está morrendo de sede no meio do deserto, mas não encontra nenhum cacto com reserva de água? Pode ser, mas o fato é que a nossa mente também precisa de um descanso e quem está nessa batalha constante de tentar “fazer alguma coisa”, ainda que a gente não saiba muito bem que coisa é, precisa cuidar de si, da sua saúde mental.

Saúde mental é um termo que está super na moda e a gente tem usado muito genericamente para dizer basicamente que: estamos ficando cansados, exaustos, pifando, tendo crises, enfim, adoecendo. Trazer para a nossa vida um pouco de prazer, seja lendo livros, assistindo a séries, conversando, bebendo com os amigos, namorando, enfim, como cada um preferir, deve ser também uma de nossas prioridades. Isso porque as tentativas de nos desequilibrar e nos tornar pessoas adoecidas pelo sistema em que vivemos têm sido muito bem-sucedidas, sabe. E se a gente não se cuidar, vai acabar ficando totalmente desiludido, desesperançado, achando que precisamos apenas obedecer ao status quo e nos tornar aquilo que a sociedade quer que gente seja e não aquilo que desejamos ser ou o que somos. Só assim vamos conseguir chegar aos 30, 40, 50, 60, 70 ou 81 anos, como Jane Fonda, ainda tendo gás para lutar por aquilo em que acreditamos.

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Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.

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Alê Magalhães

Alê Magalhães

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