Um teto todo seu, Virgínia Woolf

“(…) qualquer mulher que tenha nascido com um grande talento no século XVI certamente teria enlouquecido, atirado em si mesma ou terminado seus dias em um chalé nos arredores da vila, meio bruxa, meio feiticeira, temida e escarnecida.” (p. 74)

Na primeira aula do curso “Feminismo sem concessões de Virginia Woolf”, a professora Viviana Ribeiro, uma das co-fundadoras do Ipia Comunidade de Pensamento , fez a seguinte pergunta: “qual é a relação de vocês com Virginia Woolf?” Minha resposta veio logo na ponta da língua: “quero ser amiga da Virgínia.” Já havia tentado uma aproximação com a escritora britânica na época da graduação, buscando a leitura dos diários, num livro da biblioteca. Me lembro até hoje da minha decepção por não conseguir prosseguir na leitura, não me interessava nem me prendia ler aquelas linhas. Atribuo isso um pouco à imaturidade, um pouco à falta de preparo para uma leitura tão densa. Tempos depois, vi ofilme “As horas”, baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, e isso serviu para manter acesa minha curiosidade sobre essa mulher que foi tão importante para a literatura. Mais recentemente, foi a vez de tentar ler “Mrs. Dalloway” e, novamente, não conseguir me prender nem ao enredo nem ao texto de Virgínia.

Quando um livro não me “pega”, não costumo insistir muito. Entendo que o momento do nosso encontro não é aquele. C´est la vie! Só que a personalidade de Virgínia continuava me atraindo e me fascinando. Por conta de tudo isso, encarar a sua escrita ficou sempre no meu horizonte e foi se tornando cada vez mais urgente quando iniciei o meu projeto pessoal e acadêmico de ler mulheres. A oportunidade de fazer um curso foi perfeita e as aulas foram momentos incríveis de descoberta e troca que me abriram portas e janelas para entrar no mundo dessa escritora brilhante, vanguardista, irônica, feminista, perfeita, sem defeitos.

Enfim, “Um teto todo seu”, um misto de ensaio e ficção, foi a obra que inaugurou a minha leitura de textos da rainha do fluxo de consciência. Neste livro, a escritora defende a tese que, para escrever ficção, as mulheres precisam de: 1. “quinhentas libras por ano”, ou seja, uma renda que lhe possa garantir a sobrevivência; 2. “um teto todo seu”, ou seja, um lugar em que ela possa ter espaço para trabalhar sem ser interrompida pelas inúmeras tarefas domésticas que lhe são atribuídas; 3. o acesso à educação; 4. a possibilidade de experimentar experiências variadas e não ficar apenas restrita “ao lar”; 5. um ciclo de amigos; 6. um comum literário feminino — ter um caminho percorrido antes dela, mulheres escritoras que a precedessem; 7. “matar o anjo feminino” que impede, muitas vezes, a mulher de escrever. Para chegar até essas conclusões, Virgínia cria muitas fábulas e inventa muitas situações em que mostra a total desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres nos meios acadêmicos e até mesmo na tradição da literatura.

Convidada a dar uma palestra sobre mulher e literatura, ela não segue o caminho mais óbvio que seria o de falar sobre as escritoras inglesas que se destacaram até aquele momento. O que ela faz é se perguntar por que durante tantos séculos não houve sequer uma mulher que se destacasse no campo da literatura. As respostas são muitas e uma das que mais me chamou a atenção foi que, apesar de as universidades terem sido criadas por volta do século XI, na Grã-Bretanha, foi apenas no final do século XIX que as mulheres puderam frequentá-las. Ainda assim, apenas em alguns cursos e saindo com um diploma que era inferior ao dos homens. Outro momento que achei completamente genial foi a “invenção” de uma irmã para Shakespeare. Virgínia propõe que se imagine que o grande dramaturgo tenha uma irmã com igual talento e nos pergunta: quais as chances que essa irmã teria de ver suas peças encenadas e louvadas pelo grande público? Não precisa entender muito sobre história, apenas observar o que disse o bispo Edir Macedo, em pleno 2019, para saber que as oportunidades da irmã de Shakespeare eram reduzidíssimas. Um pequeno grande detalhe: tudo isso foi escrito em 1929. Isso mesmo, há noventa anos!

Foi um prazer enorme conseguir seguir as veredas desse livro e me encontrar com Virgínia para tomar um chá das cinco. Espero que nossa amizade recém-começada se prolongue por muito e muito tempo. Foi impactante o contato com a escrita sarcástica, visceral e certeira de Virgínia que coloca em pensamentos, palavras e atos um feminismo sem concessões, como definiu muito bem minha querida professora. Obrigada Viviana Ribeiro, vida longa à Ipia!

Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.