Tarja preta (meu ano com depressão), de Cecília Garcia Marcon

“- Glória, você me arruma uma aspirina?

- Por que é que você me pede tanta aspirina? Não estou reclamando, mas isso custa dinheiro.

- É para eu não me doer.

- Como é que é? Hein? Você se dói?

- Eu me doo o tempo todo.

- Aonde?

- Dentro. Não sei explicar.”

(A hora da estrela. Clarice Lispector)

Fiquei tentando elaborar a minha leitura sobre o livro “Tarja preta (meu ano com depressão)”, da Cecília Garcia Marcon, durante um bom tempo. Não é simples ou fácil falar sobre um tema que desperta tantos gatilhos emocionais. Por isso, fui aguardando até sentir que estava preparada para falar da minha experiência de leitura. E o fato é que eu não estou, mas vou escrever mesmo assim. Então, é bom que você saiba que as linhas que correm daqui para frente são palavras de alguém que vai falar sobre leitura e escrita e não necessariamente sobre depressão.

Primeiramente, preciso dizer que a epígrafe desse texto me veio a partir de uma releitura de trechos de “A hora da estrela”, da Clarice Lispector. Assim que eu o (re)li, tive certeza de eu iria incorporá-lo ao meu texto sobre o livro da Cecília. “Tarja preta” foi publicado em 2018 e “A hora da estrela”, em 1977, quarenta e um anos antes. Ao longo dessas quatro décadas, quantas mulheres escreveram ou publicaram sobre suas dores existenciais, “curadas” com aspirina ou antidepressivos? Quantas mulheres sentiram as “mesmas” dores que Macabéa e Cecília sentiram? Acho que esse é o ponto importante para mim: de que maneira a literatura pode nos ajudar a elaborar nossas dores? Eu sinto as dores de Maca, eu sinto as dores de Cecília, eu sinto as minhas dores.

Apesar de Macabéa e Cecília serem mulheres muito diferentes, em suas personalidades e perfis pessoais e profissionais, enfim, isso não as impede de sentir nem de falar de suas dores. A primeira de modo mais inconsciente e enviesado, pelas mãos de um narrador que tem muitas dúvidas sobre como vai falar sobre algo que não viveu, grande Rodrigo S. M., criado por uma das mais geniais autoras da literatura brasileira. Ave, Clarice Lispector! A segunda, a própria Cecília, escrevendo o gênero autobiografia (o que eu mais tenho amado ler nos últimos tempos com autoras como Simone de Beauvoir e Patti Smith, mas isso é papo para um outro texto). Fato é que Cecília não é somente a personagem do livro “Tarja preta”, ela é a narradora e a autora. O livro não é ficcional, ela conta sobre um ano de sua vida, de tempos muito conturbados na história do nosso país e, na minha opinião, poucas vezes li livros em que uma autora ou um autor se colocasse de modo tão desnudo aos seus leitores. E foi uma experiência intensa acompanhar todo o processo da Cecília até chegar à necessidade de medicalização, como lidar com isso diante do mundo do trabalho, da família, dos amigos, do companheiro.

Dentro desse processo todo pelo qual ela passou, dois momentos me chamaram atenção: o desencontro com a sua família em termos de pensamento político e o sufocamento do trabalho que ela realizava na escola onde trabalhava. Era um grupo de debates, que precisou ser extinto por conta da censura que nós professoras e professores começamos a sofrer e que se intensificou demais nos últimos anos. Claro que eu me identifiquei, por ser professora e também por ter sentido no corpo os efeitos da deterioração da nossa democracia desde a ruptura institucional provocada pelo golpe de 2016. Foram muitos pontos em comum que encontrei com Cecília: o ardor pelo trabalho na educação, a sensação de que precisamos mudar o mundo, a vontade de fazer tudo ao mesmo tempo, a limitação para realizar tudo de que gostaríamos. Enfim, um livro que mexeu comigo demais demais demais (assim, repetido mesmo, para tentar demonstrar com a linguagem algo da experiência).

E tudo isso não seria possível se não fosse a rede, quem diria. Eu soube do livro pelo meu querido amigo Dawton Valentin, que leva com delicadeza e força o projeto Ser Linguagem. Ele postou uma resenha desse livro no perfil literário e um texto expandido no blog. Além disso, criou uma playlist no spotify com todas as músicas que servem de epígrafe para os capítulos do livro de Cecília. Só para vocês terem uma ideia, a primeira música é “Sangrando”, de Gonzaguinha, e também tem “Poema”, do Cazuza, cantado por Ney Matogrosso. A publicação, pelo que entendi, foi feita de forma independente pela editora Nocaute e nesses tempos estranhos, acho bacana fortalecer as editoras independentes, as nossas autoras, né. Quero agradecer demais a essa lindeza de pessoa que é Dawton, minha gente, e que me mandou de presente um exemplar do livro com uma carta linda. Algo para se guardar no coração e que cura, até mais do que aspirina, viu. E seguimos por aqui, tomando tylenol, dorflex, aspirina e lendo também.

Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.