Crônica de Natal, versão 1982

Acabei de ouvir no Jornal Nacional uma notícia que me levou a fazer uma viagem no tempo, minha máquina parou bem no Natal de 1982. Explico: é que o repórter anunciou que vários líderes europeus tranquilizaram as crianças dizendo que o Papai Noel não estaria submetido às rígidas regras de isolamento social, quarentena, lockdown ou como vocês queiram chamar esse negócio que o governo brasileiro fez questão de que não fosse implementado por aqui. O argumento utilizado, esclareceu o jornalista, foi de que Papai Noel faz um serviço essencial, portanto estaria liberado para circular, garantindo que os presentes seriam entregues. E por que isso me fez viajar no tempo em quase trinta anos?

No ano de 1982, um amigo do meu pai foi passar a véspera de Natal conosco, era o Mineiro. Um homem corpulento, careca e cuja personalidade era mais para extrovertida do que introvertida. Um típico amigo do meu pai, que era compositor de samba, carnavalesco de bloco, adorava desenhar, pintar e contar piadas. Se ele não tivesse nascido numa família portuguesa com certeza, cujos pais eram donos de uma chácara e que imigraram para o subúrbio carioca, talvez fosse um artista plástico ou um compositor de bossa nova. Meus avós, depois que vieram para o Brasil, moraram a vida inteira no mesmo bairro, Água Santa. Foi o bairro onde eu morei também dos três até os nove anos de idade. Para quem não é do Rio de Janeiro, preciso explicar que neste mesmo bairro está instalada a penitenciária Ary Franco, que ficava a menos de um quilômetro da minha casa. Por conta disso, durante todo o tempo que morei lá, fui orientada a entrar correndo e trancar a porta caso ouvisse algum barulho estranho.

Juro que todo este preâmbulo é importante para vocês entenderem o que aconteceu no Natal de 82. Estávamos reunidos à mesa, meu pai, como sempre, sentado à cabeceira, eu e minha mãe sentadas à direita dele, de costas para a porta da sala, e o amigo do meu pai, sentado à esquerda dele, de frente para a porta. Não me lembro exatamente qual era o prato principal desta ceia, mas preencho a lacuna com a minha imaginação e chuto — com grandes chances de fazer gol — que devia ser uma bela salada de bacalhau com batatas, cebolas e ovos cozidos, couve, com bastante azeite e vinagre, bem como meu pai gostava e minha fazia praticamente todos os anos. Ele se foi em 1992, mas mantemos essa tradição ainda aqui na minha casa. Agora um apzinho alugado no Catete e não uma casa com quintal e roseira em Água Santa.

Acontece que naquele Natal de 1982, quando a novela das sete, que passava no canal 4, era “Final Feliz”, de Ivani Ribeiro, e a música de sucesso era “O que é que há? O que está se passando com essa cabeça”, de Fábio Júnior, aconteceu um episódio que nunca mais saiu da minha cabeça. Em um determinado momento da nossa ceia, o amigo do meu pai, muito seriamente, resolveu soltar a seguinte frase: “Ah, lá! Acabou de sair um velho barbudo ali pela porta!” Ele ainda apontou o dedo na minha direção, porque eu estava de costas para a porta e de frente para ele. O que ninguém esperava era que eu tivesse uma reação tão contrária à de uma criança comum. Ele imaginou que eu fosse rapidamente associar a descrição que ele fez com a do Papai Noel. O que ele não estava sabendo era que a minha família sempre me disse que o tal Papai Noel não existia. Eu achava a maior idiotice que crianças acreditassem que vinha um cara lá do Pólo Norte para entregar um presente que seria devidamente depositado dentro do sapatinho na janela. A frase mais falada na minha família na época de Natal era “Papai Noel é o seu pai.” Em algumas situações era a mamãe e em outras a avó, que trabalhava como cozinheira num hospital. Entendia completamente isso e nunca pedia um presente que não pudesse de fato ganhar. Um ano era uma Barbie, outro ano era um boneco Meu Bebê, que levou praticamente todo o décimo terceiro da minha avó. Olhando retrospectivamente, acho que a maior preocupação deles era de que eu me frustrasse sendo uma menina boazinha durante o ano todo e não recebendo o presente que gostaria de ganhar.

Bom, dito isso, conto agora para vocês a minha reação. Depois de o Mineiro dizer que um velho barbudo tinha acabado de sair da minha casa, dei um pulo da cadeira, agarrei o pescoço da minha mãe e comecei a gritar desesperadamente: “Ladrão! Ladrão!” Vocês tinham que ver o desespero da criança, o coraçãozinho acelerado, o pânico de, em pleno Natal, ter a casa invadida por alguém que não fora convidado. Me lembro nitidamente de abrir os olhos depois de dar uns bons gritos e ver a perplexidade no rosto do amigo do meu pai. Ele me olhava sem entender nadinha de nada. Minha mãe tentava me acalmar, dizendo que era só uma brincadeira. Ele ficou tão sem graça, mas tão sem graça, que só fazia pedir desculpas com uma baita decepção estampada no rosto. Que criança, afinal de contas, não reconheceria o velho barbudo, vestido de vermelho e que desce pela chaminé das casas para deixar o presente? Pois é, sempre há exceções. No Natal de 82, uma dessas crianças quase matou de infarto o amigo do pai, com seus gritos, achando que o bom velhinho era alguém que tinha ido até ali para nos roubar ou até fazer coisa pior.

Esta é uma das minhas memórias de infância que vira e mexe reaparecem. O que será que Freud diria? Espero que as histórias dos natais da infância de outras crianças sejam repletas de velhinho barbudo que não seja confundido com ladrão.

P.S.: Acabei de perguntar para a minha mãe se ela se lembrava dessa história e ela me disse um categórico “não”. Como prenunciava o poeta Waly Salomão: “a memória é uma ilha de edição.” Feliz Natal, gente!

Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.

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