Oi, Mônica!
Tudo bem?
Nossa, que pergunta idiota! Depois de tudo que aconteceu com você e no meio de uma pandemia, claro que não está tudo bem, né. Desculpa, eu quis dizer: como você está?
Olha, espero que você não fique chateada com esta mensagem. É que eu sou amiga do Davi e ele acabou me contando a tua história. Não foi com intuito de fofoca, não. Te juro! Acho que foi mais como uma maneira de me ajudar a pensar numas coisas complexas que acontecem na vida da gente, aquelas zonas obscuras que acabam ficando totalmente escondidas. Sabe como são os escritores. Não que eu tenha vivido algo parecido com o que você viveu, mas é que a gente acaba entendendo, depois de escutar a tua história, que a vida é feita de surpresas. Sei que parece clichê do jeito que eu estou falando - "a vida é uma caixinha de surpresas" - mas a tua história me fez pensar demais em um monte de coisas. Com este lance da pandemia, que aliás espero não tenha levado ninguém da tua família ou dos teus amigos, venho pensando cada vez mais em você. Sei que você tinha a tua vida bem organizada, o financiamento do ap, o emprego. Ah, nem perguntei se você ainda está no mesmo emprego depois daquele jantar desastroso.
Olha, Mônica, nem consigo imaginar o quanto você ainda está ferida por tudo o que aconteceu entre você e seu namorado, quer dizer, marido. Ah, você entendeu, o cara que morava com você. O Davi não quis me dizer o nome dele nem em qual cidade vocês moravam. Ele ficou de te mandar esta carta por email.
Vou te confessar uma coisa, no início eu senti alívio. Isso. Alívio. Porque não era comigo que todo aquele horror tinha se passado. Mas logo a seguir eu fiquei me sentindo totalmente culpada por não ter empatia logo de cara com você. Só que eu sou humana, acho que você vai me entender, né. Quantas vezes você já sentiu alívio por uma tragédia não ter acontecido com você? Depois que eu percebi que a tua história pode, na verdade, acontecer com qualquer uma de nós. Quem é que conhece de fato o outro? Tantas coisas estão escondidas, tantos desejos reprimidos, tanto silêncio. A gente acaba se acostumando a achar que sabe o que o outro é, só para nos sentirmos um pouco confortáveis na nossa própria pele.
Eu já me perguntei mil vezes se você não percebeu o que estava acontecendo, mas eu também já me recriminei por achar que você tinha que dar conta da psiquê do outro. Relacionamento é assim, umas horas tem mais conexão, em outras estamos mais desligados mesmo. E as pessoas quase não falam sobre casamento. Parece tabu falar de que nosso desejo circula, nem sempre está preso ao mesmo pólo.
Não sei se vocês já chegaram a se ver de novo ou conversar. Não importa. Eu queria mesmo, Mônica, era te dizer que eu estou totalmente solidária a você. Sei que já passou um tempo do ocorrido, não queria remexer em coisas antigas, mas senti vontade de te dizer isso.
Mana, eu tô aqui se você precisar conversar. Pelo zap, claro. Ou Zoom. Este vírus desgraçado atrapalha até isso. Queria poder te chamar pra um café, te dar um abraço forte. Então, sinta-se abraçada mesmo de longe. Nem sei se a gente tem muita coisa em comum. Eu gosto de livros, sou professora, estou escrevendo umas coisas também.
Mônica, sinta meu carinho e meu afeto. Tenho certeza de que depois de tudo que você passou, do tombo que levou, vai conseguir levantar de cabeça erguida. Não é mole ser mulher neste país, neste mundo, eu acho. Mas, se a gente puder ficar juntas - ainda que separadas -, as coisas vão melhorar. Eu acredito nisso demais.
Um abraço enorme.
Alessandra (pode me chamar de Alê)

Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.

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