Carta a Janina Dusheiko*

brasil, 15 de janeiro de 2021.

Olá, Senhora Dusheiko. Como vai?

Há mais ou menos seis meses comecei a escrever uma carta para a senhora, mas acabei a abandonando pelo meio do caminho. Achei que não conseguiria um portador para entregar a missiva na Polônia ou onde quer que a senhora esteja no momento. Além disso, temos a barreira da língua, não é mesmo, eu escrevo em português e a senhora lê em inglês e polonês. Entretanto, hoje eu precisava conversar com alguém e acredito que somente a senhora poderia me entender completamente. Quando eu escrevi a primeira versão desta carta, mais ou menos em julho do ano passado, o fatídico 2020, queria falar sobre o Pantanal, as queimadas criminosas que aconteceram por lá e que nos fizeram perder uma parte enorme da nossa biodiversidade. Eu sabia que a senhora entenderia o meu sentimento e a minha indignação com tudo o que estava acontecendo. Eu conheço um pouco da sua história, sei que a senhora gosta de Blake, astrologia e animais. Eu admiro muito a sua luta contra aqueles caçadores tenebrosos que espalharam o terror na sua região. Eu escrevi a carta, que não enviei, para lhe dizer que queria ter um pouco da sua coragem ao denunciar tudo que estava acontecendo. Agora, eu estou escrevendo para desabafar. O Pantanal parou de queimar, é verdade, mas nós continuamos sufocados. O ar no meu país está irrespirável e isso bem que poderia ser apenas uma metáfora, só que, infelizmente, é uma frase bem realista. É que o governo brasileiro tem um projeto bem parecido com os caçadores da sua região: o extermínio. No caso, o extermínio de pessoas por meio do sufocamento e da falta de oxigênio. Não é apenas negligência, entende? Não é apenas um descuido ou uma incompetência. É uma política oficial. Um genocídio. Imagine que acabamos de ficar sabendo que existe a possibilidade de sessenta bebês que nasceram prematuramente precisarem ser transferidos, porque não há oxigênio para eles. Se-ssen-ta be-bês pre-ma-tu-ros! Imagina como fica o coração de que tem o mínimo de humanidade ao ler uma notícia dessas?!?!? Acho que a senhora já deve ter ouvido falar da Amazônia, o “pulmão do mundo”. Tudo isso que eu contei está acontecendo em uma cidade-floresta chamada Manaus, que fica no estado do Amazonas. Apesar de não falarmos a mesma língua, por causa daquela tal de babel, tenho certeza de que vai me entender totalmente. Eu escolhi justamente a senhora para mandar essa carta, porque preciso de alguém que me entenda. A senhora também sentiu essa mesma indignação que eu estou sentindo, senhora Dusheiko. Imagina que o governo foi alertado por especialistas, por autoridades da região, pela sociedade de um modo geral, mas não fez absolutamente nada, que é também uma maneira de fazer alguma coisa. Claro que tem aqueles que fingem que nada está acontecendo, a gente grita, como a senhora fez lá na missa onde todo mundo estava reunido, e apenas acham que nós somos as loucas exageradas, que nem é tudo isso, que não precisa fechar tudo e proteger as pessoas. Afinal de contas, e a economia? A economia é mais importante do que as vidas, obviamente que é. Eu estou escrevendo mesmo essa carta para pedir que a senhora faça o mapa astral do dia em que o brasil morreu, quem sabe a senhora descobre alguma coisa que nós estamos precisando desvendar. Pelos documentos oficiais, senhora Dusheiko, foi no dia 22 de abril de 1500 o dia da morte deste território que depois passou a ser chamado de brasil. A senhora precisa das coordenadas exatas de latitude e longitude para fazer os cálculos do mapa? Bom, isso eu não sei dizer com exatidão, deve ser algo entre a latitude do horror e a longitude da indiferença. Acho que, com essas informações que eu passei, dá para fazer os cálculos. Confio muito na sua leitura dos mapas.

Aguardo, ansiosamente, sua resposta.

Um abraço virtual bem apertado.

Alê Magalhães

*Este texto faz parte de um projeto pessoal de escrever cartas a personagens que me marcaram. Janina Dusheiko é personagem do romance “Sobre os ossos dos mortos”, da autora Olga Tokarczuk, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2018–2019. No Brasil, o romance foi publicado pela Editora Todavia.

Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.