As coisas que perdemos no fogo. Mariana Enriquez

“A cidade não tinha grandes assassinos, com exceção dos grandes ditadores, não incluídos no passeio por correção política.” (Pablito clavó um clavito: uma evocação do baixinho orelhudo)

O que você sente quando assiste a um filme de terror? Quais são as lembranças que vêm a sua mente quando se adentra a zona obscura e limítrofe entre a realidade sombria e a imaginação macabra? Eu vou te falar que eu morro de medo. Sinto arrepios, meu corpo fica todo tenso e, à noite, ocorre aquela clássica paranoia: o que será que as sombras estão escondendo? Lembro muito bem que, quando era pequena, minha mãe não me deixava assistir a filmes de terror, mas os meus primos, que já eram uns cinco ou seis anos mais velhos, podiam. Como vocês sabem, qualquer proibição acaba gerando um desejo pelo objeto, não precisa entender muito sobre psicanálise para compreender isso, basta ser um bom observador do ser humano.

Acontece que meus primos falavam muito de um filme chamado “Pague para entrar, reze para sair”, que fez algum sucesso nas madrugadas da Rede Globo nos anos oitenta. O filme conta a história de um grupo de jovens que entra em um parque de diversões, sem saber que o lugar guardava segredos malignos. Vocês já devem imaginar o final, mas não serei eu a propagadora de spoilers, né.

E o que tudo isso tem a ver com o livro “As coisas que perdemos no fogo”, da escritora argentina Mariana Enriquez?

Tudo! Acontece que eu comprei o livro, porque vi muita gente falando que era muito bom. Sim, eu comprei por causa da hype do livro, ou seja, não devemos atirar pedra no telhado do vizinho, juro que nunca mais falo mal de quem segue modinha. Para quem não está familiarizada com essa gíria, ela significa que o livro se tornou o assunto do momento, é comentado por todo mundo, está dando o que falar. É uma estratégia muito usada no campo do marketing e cuja linguagem se expandiu. Abre parênteses: agora, aquele conhecimento que toda professora de português adora. Apalavra hype é uma abreviação de hyperbole, em inglês. Várias pessoas que eu sigo no insta mostraram esse recebido da editora e alguns que leram falaram que gostaram do livro. Ocorre que eu não me detive para ler com mais detalhes do que é que se tratava o livro. Acabei descobrindo, só depois que comprei, que era um livro de contos, gênero que amo cada vez mais, e, somente com a leitura, cheguei à estarrecedora constatação de que era um livro de TERROR! Não me lembro de ter lido outro livro de contos de terror na vida. E olha, qual não foi minha surpresa: eu gostei!

Nos contos iniciais, os três primeiros, a autora vai enredando o leitor pela atmosfera que se revelará, de fato, a partir do quarto conto. Ela fala muito mais sobre o terror da nossa realidade, um menino sujo que mora com sua mãe na rua, as memórias cruéis da ditadura militar argentina, a lenda urbana criada por meninas que se drogam, enquanto seus pais estão preocupados demais em como vão sustentar a família diante do fracasso da economia do país no início dos anos noventa. Até aí, ok, nada que fosse sobrenatural ou tão estranho assim. A partir do quarto conto, começam os desaparecimentos sem explicação, as estranhezas das aparições de fantasmas do passado, as alucinações que deixam a dúvida se são ou não reais. Junto a tudo isso, a autora discute a violência contra a mulher, o abuso de autoridade da polícia, a deep web, o casamento que se esfacela depois do nascimento do primeiro filho e outras questões contemporâneas e urgentes.

Foi um livro que me tirou da minha zona de conforto e me colocou diante de situações e experiências novas em termos de leitura. Ao mesmo tempo, Mariana sabe muito bem manejar a herança do realismo fantástico latino-americano e usa isso a seu favor. A questão dos tantos desaparecimentos que são tratados no livro, me parece, são uma referência ao passado autoritário da argentina, em que muitos que lutaram contra a ditadura foram torturados, mortos e seus corpos não foram localizados até hoje. Os finais inesperados e o mistério crescente do livro, que não joga logo o leitor dentro do terror de uma vez, foram fundamentais para que minha experiência de leitura fosse bastante interessante, por assim dizer. Eu fiquei tão intrigada com a autora que resolvi ler uma matéria sobre ela no Suplemento Pernambuco, edição de setembro de 2018. A partir dessa leitura complementar, consegui entender alguns incômodos que acabaram surgindo, como o fato de que ela descreve uma cidade de Buenos Aires decadente pelo olhar da classe média. Ela entra nas periferias não como “a local”, mas com o olhar deslocado daquela classe média que perde o seu poder de compra, mas não perde a arrogância.

Resultado: quero ler mais obras da autora e quero ler ainda mais literatura argentina e latino-americana. Se quero ler mais livros de terror clássico, ao estilo do Stephen King, ainda não sei. O que eu sei é que isso serviu para me mostrar duas coisas: 1) quando um livro está sendo lido por pessoas que têm o gosto parecido com o seu, dê uma chance, porque pode não ser apenas modinha; 2) sair da caixinha e ler aquilo que nos incomoda pode ser uma experiência incrível.

Conversei sobre isso com um dos meus queridos ex-alunos e logo menos já vou estar mandando — adoro essa linguagem de telemarketing — o livro para Vitória da Conquista. Peraí, João! Mariana Enriquez vai chegar para animar suas férias.

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Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.