Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, de José Saramago

“Pois paz sem voz não é paz, é medo” (Marcelo Yuka)

Estes dias, passei por um story (no instagram) do Coletivo Transverso de arte urbana que dizia a seguinte frase: “Tem coisa que só sai da gente por escrito”.

Tenho pensado muito no meu processo de escrita como necessidade de colocar para o mundo aquilo que ficou entranhado pelo corpo. Escrever é uma forma de tentar elaborar, quando nem a rememoração solitária, o monólogo interior, a fala analítica ou as conversas de bar resolvem. Então, escrever e, sobretudo, publicar os escritos — algo muito difícil para mim, acreditem — têm sido um ato de desentranhar umas coisas que ficaram guardadas e inscritas na carne por muito tempo.

Nesse caminho, retorno ao dia 18 de junho de 2010, dia cansativo, porque naquele ano eu trabalhava em tripla jornada às sextas: manhã e tarde em uma escola de ensino fundamental do município, depois ia para o terceiro turno, dando aula para o ensino médio, em uma escola estadual, ou seja, de 7h30 da manhã às 22h da noite. Nessa época, a gente ainda não tinha os smartphones com acesso à internet. No máximo, aquelas mensagens de texto durante o dia e as ligações só da mesma operadora, porque a maior parte dos celulares de quem eu conhecia era pré-pago. Então, as informações não chegavam de modo imediato como agora.

Comecei a noite de aula, em uma turma do primeiro ano do Ensino Médio, composta em sua maioria por adultos. Uma das minhas alunas me disse: “professora, a senhora sabe que morreu aquele homem?” “Não, não sei, que homem?” “Aquele comunista.” “Qual? Fidel Castro?” Coração acelerado esperando a resposta: “não, professora, aquele outro!”. Algumas tentativas de adivinhação depois e uma dica mais específica, eu disse: “José Saramago?” “É, professora, esse mesmo!”. Senti praticamente o chão sumir embaixo de mim, muito provavelmente fiquei lívida, não esperava receber uma notícia dessas assim, de supetão. O escritor que me acompanhou por tanto tempo, o intelectual que se tornou minha referência. Perder Saramago era a sensação de perder algo de mim mesma. E daí que eu já sabia que ele estava com mais oitenta anos? E daí que eu já sabia que ele tinha sido internado e estava com uma saúde frágil? Nunca me sinto preparada para encarar a morte de alguém importante. Minha aluna ficou um pouco assustada ao ver a minha reação. Precisei me sentar, pegar o celular, ligar para a minha mãe e perguntar: “o Saramago morreu?” “Sim, filha…” “E por que você não me avisou?” Eu não sei o que foi que minha mãe me respondeu nem como continuei a aula. Quando acontecem coisas que me deixam fortemente emocionada, eu costumo guardar apenas alguns flashes de forma muito nítida e todas as outras coisas ficam meio borradas em volta.

Fato é que, até julho deste nosso fatídico ano de 2019, a morte de Saramago tinha sido duramente sentida naquele momento, quando o único pensamento era: “como pensar o mundo sem as suas palavras?” Mas aí é que surge a mágica de compreender que um escritor deixa um legado: dava para acessar um blog que ele mantinha e no qual escrevia de vez em quando, tinha os vários livros dele que eu não tinha lido ainda, reportagens, imagens, vozes, o documentário com a Pilar, que lindo!, e, de repente, parecia que ele não estava mais ausente. Parecia que a sua existência continuava a repercutir no nosso mundo. Parecia não, ele continua(va) aqui. Foi só quando me deparei com o texto incompleto de “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”, livro publicado postumamente, que senti sua completa ausência. O seu silêncio se tornou um grito ensurdecedor ao meu redor. Só fiquei um pouco apaziguada depois de ler o texto do Luiz Eduardo Soares, na edição brasileira, em que ele relata algo muito parecido com o que eu senti também. Aliás, acho que só consegui elaborar bem o que eu estava sentindo depois de ler o testemunho do sociólogo brasileiro. Faz nove anos que Saramago se foi, neste mês de novembro ele completaria 97 anos, e foi só agora que consegui realizar completamente — talvez completando um ciclo meu — a sua morte. A sua ausência se fez presença, completa e absoluta.

Isso porque, como “Ensaio sobre a cegueira” ou “Homem duplicado”, “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas” é mais um livro daqueles em que Saramago antecipa os movimentos da sociedade em que estamos vivendo hoje, o presente, o aqui e o agora. E eu precisava, quer dizer, preciso muito saber qual vai ser o final da batalha que estamos enfrentando em nossos tempos: vamos novamente vencer o fascismo? Derrotá-lo, enterrá-lo de vez?

“Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas” — título retirado de um verso da tragicomédia “Exortação à guerra”, de Gil Vicente — contém os três primeiros capítulos e algumas anotações sobre os rumos que a história tomaria, mas é um livro inconcluso. É um livro incompleto. É um livro que nos coloca no vazio, porque termina sem se encerrar. Nesse sentido, a maior lição simbólica que Saramago nos deixa é a de que a história ainda está por ser escrita. Já explico o porquê.

O romance narra a vida de um cidadão comum, ordeiro, cumpridor dos seus deveres, funcionário exemplar. O único “detalhe” é que ele trabalha em uma fábrica de armas. Olha só o Saramago jogando Hannah Arendt na nossa cara: a banalidade do mal. O indivíduo nem pensa nas consequências que o seu trabalho pode gerar, nunquinha. Precisou que a mulher dele, felícia, desse-lhe um pé na bunda, largasse o homem, sem querer nem mais falar com ele, para que a aura de normalidade se quebrasse. É felícia quem, mesmo separada, ainda dá uma cutucada em artur paz semedo (a ironia desse nome!) a ponto de ele se movimentar em outra direção. Isso me lembrou um ensaio de Virgínia Woolf cujo título é: “as mulheres devem chorar ou se unir contra a guerra”. felícia não me parece ser uma mulher que vá chorar.

No decorrer dos três curtos capítulos, artur paz semedo resolve investigar a empresa onde trabalha e quais as suas relações com a Guerra Civil Espanhola. Quer dizer, ele não pode mais fingir que tudo bem trabalhar para uma fábrica de armamentos e ir para casa sem refletir muito sobre as consequências do “produto final”. Saramago coloca em cena tantas questões importantes para o nosso momento: o cidadão de bem, a banalidade do mal, a guerra e suas consequências, o primado da violência, enfim, tudo que hoje — nove anos depois de sua morte, dez anos depois de ele ter começado a escrever o livro — estamos vivendo com muita intensidade.

Enfim, o encontro com “Alabardas” foi como se eu tivesse relendo o meu passado, rememorando toda a minha trajetória com Saramago, desde “Memorial do Convento”, o primeiro livro dele que eu li, ainda na graduação, vinte anos atrás. E foi muito importante que Saramago nos tivesse legado esse livro e com ele o desejo de escrever até os seus últimos dias, porque “tem coisa que só sai da gente por escrito”.

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Leitora. Professora. Escritora. Administra o instagram literário @literaleblog.

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Alê Magalhães

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